O cemitério com sua triste monotonia
Tem em seu cerne a raivosa preguiça
Dos que já se foram duma existência eterna,
E agora esquecida,
Para a verdadeira ironia
Que é o fim da ânsia pela vida
Sob a lápide fria
Sob triste agonia
Sobrevivem os ossinhos
Dançando uma dança de discoteca
Às vezes, surge pelo cemitério
Uma nobre alma, e de boa intenção,
Que deixa ao lado de um casarão
Uma rosa bela e cheia de dor
Mas o morto, coitado, já não cheira
Não ouve e não bebe os fluidos da rosa
Sob o túmido céu
Sob cinza teogonia
Ainda vivem os esqueletinhos
Cantando as modinhas da juventude!
Quando pela bruma da manhã
Alguém pigarreia forte e desce tossindo
Pelas vias do cemitério que amanhece
Os homens e as mulheres que ali estão
Pensam em como seria bom
Tomar outra taça de vinho
Sob a púrpura pura
Sob planos planos
Teimam serelepes os canicinhos
Tocando o terror por toda a eternidade!
Já pelo céu de camurça
As vozes dos pássaros acalmadas
O entardecer comove os vivos
Mas não comove os que dentro vivem,
Assustados, fechados em suas tumbas,
Pela infecunda escuridão
Sob o vórtice curvo
Sob intrusão íntima
Rondam ágeis as vertebrazinhas
Rolando as venezianas para o Happy Hour Celestial!
A vigília noturna inicia
Enquanto a diurna aplaca-se
Pelo eternamente restam-se os restos
Da divisão entre o que foram e o que eram
Em cada instante, a cada crise
Infinitesimalmente destilam-se as crenças no ar
Sob verdadeira reza
Sob triste alegria
Morrem os mortozinhos
Eles e seus desejos que são do além!
Sob a cruz vítrea
Sob mantos finos
Nada foi suficiente para esconder
A completa falta de âncora
no mar revolto, no mar de gente,
no mar de céu, no mar de paraíso,
no mar de inferno, no mar de terra
no mar de vida, no mar de morte.
O cemitério enterra:
o que foi,
o que poderia ser
e o que jamais será
Nessa eterna tristeza.
O cemitério enterra:
ResponderExcluiro que foi,
o que poderia ser
e o que jamais será
Nessa eterna tristeza.
Ter uma filho lá... em vida é a pior das mortes...
A morte passa a ser amiga
que vem e nos livra
de tamanha tristeza em vida...