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terça-feira, 14 de julho de 2020

Fogo

Fogo
É quente e não se dissipa
Até que haja o fim
A morte do fogo sempre iminente.

Todas as forças adjacentes
Anseiam a morte do fogo
Ele não se surpreende
Mas persevera até que seu destino se cumpra.

É iminente a ameaça!
O fogo congela sem que possa respirar
Pede que seus desejos últimos façam-se
Implora pela vida que lhe resta.

Outros lhe gritam:
― Suma na sua incoerência ardil!
― Consomes outros que não podem defender-se!
― Finge ser vítima, mas não tens pena!

O fogo queima e destrói
Consome o que a sua volta existir
Até que sucumba
Na sua morte infeliz.

domingo, 4 de maio de 2014

Inverno

Inverno aspirado
Inverno sentido
Inverno por folhas de algodão.

Cantei e os pássaros encorujados
Assobiavam tranquilos cantigas de inverno
– Alô! Alguém feliz?
O brilho dos olhos perseverava.

O céu aprumado, cor de laranja e nuvens.
Vento rajado, tão sem igual.
Dunas de areia geladas.
Espasmos debaixo do cobertor:
pele nua arrepiada, porque se roçavam.

Rondando folhagens leves.
Folheando pelos que se excitavam.

Não era de nuvem,
nem mais de invenções
nem ainda de insensibilidade pervertida...
Era finda minha busca.

Ela sabe e Eu sei.

Depois dos invernos tristes
agora me vejo feliz, por esse clima que encanta
Aquece e vicia.

Enfim, uma nova curva desse rio tão infinito,
uma curva completa, âmbar flamejante,
cheia de esperança. Enfim!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ponto final.

Escorre como sangue na parede
É tinta não lavada.
É poema introvertido, que sai todo sem palavras.

Não tenho vontade de ser o que me veem.
Estou feliz pelo que encontro, não pelo que encontrarei.

Morram as felicidades regurgitadas,
essas não me valem nem uma lágrima.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Mente, parte I

Deixe seu lugar vazio
O lugar será ocupado
Não há estranho nessa parte
Não há vestígios nesse continente.

Espero sentado observando o horizonte.
As aves circulam sem pressa pelos céus
Estão completas e a vida sem problemas
Elas voam baixinho.

Ouvi passos
O corredor era escuro
Ouvi medo e angústia
Mas eram só rumores do fundo da mente.

Os céus esparramam o azul brilhante
Passo tranquilo pela calçada
Som de jazz comprimido no ouvido
Lugar azul.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Mote: morte

–––
Mote: morte

Será fundamental viver evitando-a?
Será fundamental viver procurando-a?
Será imprescindível comê-la?
Será crucial cuspi-la?
Será bom fundi-la a outros sonhos?
A outros desejos milagrosos?
A toda melancolia?

A quais queixumes ela pertence?
Ela é sincera? Real? Sólida?
Ou é ilusão, plagio e fantasia?

A vida é exclusiva?
Se a vida é exclusiva, por que deixá-la ir?
Ela vai?
Ou ela fica?
De quem é a vida?
De quem é a morte?

Passamos nossos dias questionando
Há vida após a morte, Providência?
O ar perpetua em sua continência
Minhas palavras soltas ecoando...

A quem reclamo, então, a confidência?
Sou o toleirão da voz vil revoando?
Há na minha perfídia coerência?
Ou minha criação está agonizando?

Se traio a tradição, sofro a incerteza,
Sofro pela aspereza de minha alma,
Por desconhecer onde meus pés pisam

Há algum sentido em crer na Natureza
Das coisas fugidias e da calma?
Verdade inverossímil é como O chamam.

Continuar envolto nesse rumo desprezível
É como manter-se num rio que já secou
Não há correnteza que me leve longe
Desta dúvida etérea:
Há vida na morte ou há morte na vida?

Minha reflexão persevera
Meus olhos ardem deveras
Já não enxergo o caminho

Que há?

A morte é a vida?
Ou a vida é a morte?


Os colóquios bem humorados
Da galera do cemitério
Estudam como historiados
A história de quem morreu

Uns enriqueceram por toda a vida
Outros fizeram caridade em troca de regalia
Houve os que mataram para viver
Houve quem o fizesse por prazer
Mas não houve quem morresse sem culpa
De ter existido com culpa

Outros também avisaram a família
"Morro às 11h. Só não doem minha dor,
porque dessa vou precisar."

E o apego, às vezes, era maior:
"Preciso de compreensão, preciso acreditar
para me compreenderem!"

A vida é uma fonte de veneno
Um rio que nasce de flor montante

Corre imponente à jusante
Para jazer sem pressa com o que
arrastou pelo caminho.

"Desisto de tanto pensar
Carece é de ir vivendo
E quem sabe, morrendo,
Algum dia eu venha me acalmar."

Boa noite, au revoir!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Consciência

Ouvir o silêncio.
Enxergar o nada.
Sentir o vazio.
Os sentidos que ecoam,
colorem
e arrepiam
fazem da gente partes soltas
de um todo que é tão óbvio.

Cale-se, feche os olhos e despreze o que sente.
Não pense na memória, que é recheio pífio dos sentidos.
Abra a mente para o infinito absoluto,
seja aquela criança que nasceu desprovida de sentidos,
mais que um vegetal, um ser inerte.

Vou contar a história: um feto não tinha olhos,
nem ouvidos,
muito menos paladar;
quiçá tivesse olfato ou tato – seria talvez um pouco a gente.
Não, ele era nulo.
Suponha agora que você é essa criança, pergunto:
Você existe?

Seja esse ser e encontrará o Universo. É isso. Apenas isso.

É como ser um átomo zero Kelvin
É como ser uma árvore que não balança ao vento
É como ser invisível a qualquer ressonância
Não reverberar energias
É parar de respirar e nunca morrer
É olhar para os céus à noite sem jamais cansar

Não vibrar em nada e por nada.

Isto é o único e exclusivo fato verdadeiro. O Nada.

O Universo traz a gente para seu conforto invariavelmente:
nós morremos!
Agora, viver o nada sem morrer, talvez seja a experiência infinita
aquela que procuramos.

As religiões orientais, algumas encontraram,
a meditação talvez seja a única prática conhecida de ser o
Universo.
É viver a verdadeira morte em vida.

Cale-se, feche os olhos e o sentimentalismo, respire fundo e não tenha passado ou futuro...

Presente.

Consciência.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

domingo, 15 de setembro de 2013

Ulular

O tempo é fino como areia
Escorre por um fio
Duma ampulheta costurada
Feixes de luz percorrendo um prisma
Ininterrupto e oblíquo
O não cessar cíclico
Dois, três, um infinito milhão de infinitos

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Normal

A vida é um sentimento passageiro de alegria
Alegria de que não há o nada.
A vida é uma fuga constante da morte
Morte que consola quando a vida cansa.
A vida é um sentimento de eternidade
Que não quer passar

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A chuva

I.Cor
O coração batendo violentamente, o pulso vibrante, os dedos úmidos e trêmulos, a respiração ofegante, o ar nublado naquela noite. Passava das nove e o silêncio reinava absoluto, exceto pelas pancadas surdas do coração que batia violentamente... Violentamente... Os gritos...
Os olhos turvaram de cores vermelhas e tons enegrecidos, um mar rodeava as mãos de quem já expirava, de quem não se levantaria mais.
Rostos estranhos rodeavam os céus já distantes, um prédio familiar crescia para o alto, uma garoa fina doía em quem não revidaria...
– Peço clemência... – e repetia a frase que ouvira naquela manhã.