Páginas

Frases

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Playground

Catarina chega em casa. Abre a porta e acende a luz de seu apartamento. Tropeça no tapete da entrada e esbarra num pequeno aquário vazio e sujo que estava sobre uma mesa, mas não se machuca. Traz um bolo de confeitaria que havia comprado junto de dois amigos. Eles vem logo atrás, subindo as escadas do prédio; ambos em silêncio. Um deles é a paixão da sua vida, Alberto. O outro é, na verdade, sua melhor e única amiga, Melissa.

O bolo era para o aniversário de Catarina, que ocorria naquela data, e os companheiros, bem, esses serviam de convidados. O silêncio entre eles era total até que uma frase o rompeu:

Esperem que vou buscar dois copos de refrigerante.

Eu te ajudo, Catarina – respondeu Melissa.

Alberto apenas admirava o entalhe dum móvel já muito velho que estava ao lado da porta da cozinha. O móvel era feio e descompassado, meio carcomido pela luz dos séculos de existência. Possuía apenas três gavetas que não contavam nem com dois palmos de largura. Catarina e Melissa foram à cozinha, nada diziam. Pegaram o refrigerante – também uma faca e uns pratos – e voltaram à sala do mesmo modo.

Mel, corte o bolo. Não posso me ferir, lembra?

Catarina era hemofílica. Uma raridade. Incrível ter vivido tanto. Porém, a morte não descansa, atreve-se de maneiras tão variadas. A vida que se dá num instante é tomada noutro. Catarina descobrira que tinha leucemia fazia uns anos, o que agravava mais a possibilidade de hemorragias letais. Sua vida era basicamente não se machucar e colher cada momento que passasse. Era formada em arquitetura e havia pouco tempo que deixara o emprego para tratar da doença. Sua mãe morrera no parto e seu pai falecera alguns anos depois quando Catarina era adolescente. Ele também tinha hemofilia e sofrera uma hemorragia fulminante após escorregar e ferir a cabeça numa pedra próxima à cachoeira que sempre visitava com a filha. Esta, então, terminou seus estudos com ajuda de um padre, amigo de seu pai, e logo estava com diploma, trabalho e autonomia.

Alberto apenas acompanhava o movimento da faca, enquanto tomava seu refrigerante. Ele até fez um leve movimento para cantar a célebre música de aniversário, mas desistiu. Melissa serviu um pedaço de bolo para cada um e sentou-se no sofá com seu copo. A aniversariante observava distraída aquele convívio. A noite lá fora cantava uns barulhos estranhos, mas, curiosamente, não havia naquele dia os habituais ruídos dos outros moradores. Talvez todos respeitassem aquela mísera situação de Catarina, ainda que despropositadamente.

Catarina, o que o médico disse? – perguntou Alberto.

A verdade.

Alberto engoliu seco e continuou:

Qual verdade?

Aquela em que eu vou morrer – disse isso com um semblante indiferente.

Mas não existe algum tratamento ou remédio novo? – perguntou Melissa ao raspar um pouco de creme que ainda estava em seu prato.

Sim, há, mas eu já me enojei de sempre tentar; quero agora deixar as coisas acontecerem sem interferências. Acho que terei uma morte feliz.

Apesar dos olhos de Melissa ficarem úmidos e a expressão profunda, não disse mais nada. Ficou só prestando atenção ao piso salmão e a uma formiga que passeava entre as frestas à procura de comida. Alberto também se calou.

Eu lembro da escola, quando éramos a turma do canto. Ninguém mexia com a gente, em todos os sentidos, éramos isolados. Lembram?

Melissa e Alberto consentiram balançando a cabeça.

Mas e os professores, lembram das aulas de filosofia? Era uma viagem! Adoraria reencontrar o professor Augusto, ele era um amor e tão inteligente!

Um assovio rasgou a sinfonia da noite e todos na sala olharam para fora. O vento soprava forte, o céu estava túmido e enegrecido, choveria com certeza. Era assovio de gente, devia ser algum moleque brincando no playground para não atrapalhar os pais, o relógio mostrava só sete da noite. Catarina continuava a lembrar-se dos tempos idos, enquanto Alberto e Melissa ouviam calados.

Sabe, eu escreveria um livro se não fossem... se não fossem as péssimas amizades que tivemos. Quem se podia tomar ali? Uns eram nerds, outros brigões e ainda as patricinhas e os que não estavam nem aí para nada! Ah, quem dos professores se salvava? Eu escreveria um livro se não fosse isso. Escreveria, sim.

A chuva já caía forte, o vento ainda aborrecia e a noite era cada vez mais densa. Um grito soou e toda a vizinhança silenciou. Outro grito se seguiu e um homem berrou:

Chamem um médico, rápido, uma ambulância!

Catarina correu à janela e tentou ver o que acontecia, contudo, estava escuro, pouco se via além das luzes do estacionamento e da rua depois dos prédios do condomínio. Melissa ficou paralisada e não teve reação, fora a cara de assustada que mantinha. Alberto também foi à janela.

Isso é coisa de assalto. Nesses horários não se pode ficar dando sopa, é o que eu sempre digo. Tem que ser precavido.

Fica quieto Beto, você nem sabe! Além do mais, quero ouvir o que é – esbravejou Melissa.

Alguns minutos depois, uma ambulância entrou pela portaria, enquanto uma chuva fina turvava a visão lá de baixo. O céu prometia água por mais tempo. O carro parou num lugar fora do campo de visão que se podia ter na janela do apartamento. A vizinhança quietou-se como nunca ocorrera. Catarina e os outros ficaram deslizando o olhar entre si, sentados no sofá, à espera de qualquer som.

Por quê? – murmurou Catarina.

O quê? – em coro, Melissa e Alberto.

Por que alguém tinha que morrer justo no meu aniversário? É verdade que muita gente morre todos os dias, mas por que eu tinha que saber dessa morte? Justo hoje...

Mas como você sabe que houve morte? – Alberto com cara de dúvida.

Não sei, algo me diz que alguém morreu. Isso é certo. Alguém morreu.

Melissa parou por uns instantes e, enquanto mexia num fiapo que soltava duma almofada:

Ah, para com isso, Catarina, só por causa duns gritos?

Catarina não deu muita atenção e continuou:

Justo hoje! Talvez... o último...

A conversa continuou por algum tempo, quem sabe esperando a chuva parar. Alberto e Melissa viram que era tarde – onze horas – e decidiram ir embora. No caminho, procuraram entender o que ocorrera, mas não havia nada além da chuva e do silêncio.

Não disse? Não foi nada, não teve morte, do contrário, teria um monte de carros de polícia aqui! Catarina é doida!

Ela só está escondendo a própria tristeza, Mel...

Eu sei, mas... E a nossa tristeza também...

Dias depois, esclareceu-se que um garoto havia caído do sexto andar, fora levado ao hospital, contudo não resistiu, morreu. Devia ter doze ou treze anos. Não se sabe o que houve, só se sabe que estava sozinho em casa; os pais haviam saído, estavam no supermercado quando tudo ocorreu. A polícia continuou investigando sem sucesso e a morte foi dada como acidental. Muitos levantaram hipóteses das mais absurdas às mais sensatas; houve quem dissesse ser um assassinato, outros, um suicídio. Enfim, além do sangue no chão do estacionamento, nada foi encontrado no quarto do menino, nenhum indício. Sobrou apenas a dor dos pais e o processo por abandono que enfrentarão.

Catarina voltou a ser internada. Desta vez, porém, seu estado se agravara. O médico explicou a Alberto e Melissa – a única família de Catarina, não tinha mais ninguém – que talvez não sobrevivesse nem um mês, suas hemorragias eram mais constantes e, bem, seu desejo de morte também não colaborava, já quase não comia e sua apatia era penalizante.

Catarina, como você está? – perguntou Melissa com um olhar enternecedor para a paciente, que se encontrava numa cama incrivelmente branca.

Revoltada e feliz. Sempre quis saber se sobreviveria... E agora estou à beira da morte... O médico não disse nada... Nada para mim, mas eu sei que estou morrendo... Melhor, expirando, fica mais bonito...

Naquele dia ela era a única internada no hospital. Os outros pacientes devem ter ido tirar férias daquela monotonia, foram aproveitar o verão que já chegara. Alberto estava apoiado próximo aos pés de Catarina, levantou-se e foi até junto da cabeceira da cama. Pegou na mão da sua amiga com um olhar baixo e vazio. A mão dela estava gélida, apesar do calor que se precipitava do dia lá fora. Catarina estava fria, completamente fria. Como alguém poderia dizer aquilo? Querer morrer assim? Tudo bem a gravidade da doença, mas por que essa postura se ela sempre foi tão forte? Ou só escondia uma fraqueza tão maior? Era injusto com quem a amava...

Não diga isso Catarina, você tem a nós... – já quase não suportando o choro – Vivemos momentos únicos, você não pode, você não vai esquecer disso!

É verdade... – Melissa abanando a cabeça e deixando as lágrimas correrem.

Mas eu não esqueci... só não sei se vale a pena lembrar quando se está tão diante da morte como eu estou agora.

Alberto até tentou retrucar a frase da amiga, vendo, porém, as lágrimas de Melissa, entendeu que, talvez, aquilo fosse só um meio de Catarina enfrentar tamanha dor e o peso da realidade pela qual passava. Era tempo de lamentar os sentimentos. Calou-se.

As horas corriam rastejantes e havia uma agitação dos pássaros lá fora. Um dia de sol, tão lindo, dava vontade de deitar na grama e ficar curtindo o prazer do ócio. O quarto do hospital tinha cor branca em quase tudo e, com a luz que entrava pela janela, o ar brilhava, era cintilante. O verde das árvores do jardim criava uma sensação muito agradável, perfeito; quem sabe por isso estava lá. Uma pequena televisão – que sempre ficava no mudo – era o único passatempo de quem ali estava. Deveria ser nove ou dez horas da manhã. Passava um desenho animado.

Melissa tentou iniciar uma conversa com Catarina, porém, esta resistiu até que ficaram as duas se encarando sem dizer uma palavra. Que triste verdade a de Catarina... Fica às vezes tão entretida nos próprios problemas que esquece de viver... o curto tempo que lhe falta. Como seria bom poder animá-la... Tão jovem e tão destruída pela vida... Não merecia esse fim, sempre uma amiga incrível, não merecia.

Vamos, você precisa se animar, Cat... Alberto, diga para ela se animar! – Melissa já se envolvia em lágrimas.

Me deixe em paz! – foi a única e compreensível resposta de Catarina.

O tempo passou assim. Poucos acontecimentos, muita monotonia. A única coisa que valia a pena era aquele jardim. Muito bonito.

Catarina ficou alguns dias, uma ou duas semanas, e piorou. Sua saúde estava cada vez mais debilitada pela doença, sua aparência mudara demais naquele curto tempo, emagrecera um tanto, era outra Catarina.

Mel, quero falar... – Catarina disse isso quando Alberto não estava na sala, fora comprar pães e alguns ingredientes para um lanche.

Diga, Cat...

O menino, o do prédio... Ele cometeu suicídio.

O quê? Mas, como sabe? Você estava com a gente o tempo todo, Cat. Acho que está delirando.

Não, estou muito consciente; o garoto se matou. Preciso lhe contar...

Melissa arrumou o cabelo e procurou sentar-se melhor na cadeira em que estava.

Eu o conheci algumas semanas antes do meu aniversário e ele era bastante gentil e bem bonito. Na verdade, ele que falou comigo primeiro, disse que gostava dos meus sapatos. Eu os achava horríveis, mas ele achou que eram bonitos – disse isso observando a quina da porta.

Conversando com ele no playground fiquei sabendo que sofria na escola com gozações, diziam que era homossexual; sabe, aquelas brincadeiras... Acho que diziam isso sobre ele porque era muito bonzinho, delicado; parecia ser muito especial.

Nesse instante, uma enfermeira passou na porta e perguntou se as duas queriam algo. Responderam que não e ela saiu. Um pardal pulava e fazia confusão no meio das árvores. O sol estava a pino, deveria ser meio-dia.

Mas e o que isso tem a ver com a morte dele?

Criei uma certa amizade com o garoto – prosseguiu sem atenção à pergunta de Melissa – e num certo dia... Eu o induzi ao suicídio...

Ao dizer isso, sua expressão era um misto de tristeza e de indiferença. Melissa ficou paralisada, como sempre fazia quando se assustava.

Ele merecia, Melissa, assim como eu mereço agora.

4 comentários:

  1. Noossa! Resumo todo o texto em uma palavra: Impacto! Realmente prendeu minha atenção o tempo todo e me impactou. Muito bom Fabrício, eu gostei muito. E ainda deixou o gostinho de quero mais, como ela o induziu ao suicidio e o porquê ele merecia assim como ela?rs Adorei.

    ResponderExcluir
  2. Hum, sou um pouco suspeito para dizer qualquer coisa. Mas digamos que eu dei mais ênfase a alguns pontos do que em outros. Fico feliz de saber que gostou do texto e, se realmente consegui prender sua atenção, acho que o objetivo principal foi cumprido! Obrigado Ana!
    Ah, em breve publico outros textos, talvez menos impactantes, mas também menos misteriosos. ;D

    ResponderExcluir
  3. Caramba....Amei a Leitura ,poderia continuar a historia ,uma vontade no meu eu de saber o porque que ela induziu o garoto ....Parabéns ....Se tiver esperarei anciosa ...bjus

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, obrigado, Alciane. Será um prazer poder continuar, mas vai ser uma loucura! Esses textos são daqueles que vêm, passam e deixam o que querem. Mas vou tentar alguma coisa. =]

      Excluir