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domingo, 15 de setembro de 2013

Ulular

O tempo é fino como areia
Escorre por um fio
Duma ampulheta costurada
Feixes de luz percorrendo um prisma
Ininterrupto e oblíquo
O não cessar cíclico
Dois, três, um infinito milhão de infinitos

O estacar do relógio
O intermitente pesar ou alegrar
Das horas que vem e vão, em vão
Os segundos que caem, passam e somem
Da luz infinita ao negrume abissal
Os instantes chovem secretos
Uma chuva pesada e triste.

O contínuo ou o discreto?
O fluxo ou o impulso?
Uma quasar ou uma pulsar?



A surpresa antecede uma razão estranha.
Sabe-se do tempo presente, mas nada mais.
O tempo é presente, mas não é passado ou é futuro. É presente.
O tempo é insanamente concentrado, infinitamente pontual.
É como entrar num circuito fechado, e nunca dar duas voltas.
Aí só andando de imaginação para fugir dele.



Peixoto ligou seu rádio. Duas da madrugada e a estrada rolava debaixo dos pneus macios e silenciosos. A escuridão tomava conta da noite, sem lua, sem estrelas; na frente, apenas seu farol bem regulado e branquinho. Dava orgulho dirigir carro bonito e conservado. Felicidade que ululava a sua valsa impulsiva. Ululava? Não, que enviesava! com sua valsa impulsiva, assim fica melhor. O chefe vai sorrir de saber o que houve com a viatura do Barbosa, toda borrada nas fotografias dos jornais. Delegado sacana que não sabe se virar, dá nisso, vira presa fácil!
Uma chuva fininha e doída cortava o céu acinzentado, vindo parar no capô negro da viatura. Peixoto não via a hora passar, sua cabeça estava longe, quicando em tudo e por tudo.
– Zero horas na Rádio Paixão, só sucessos de amor!
Que zero horas! Eram duas da madrugada! Radialista otário, nem hora certa tinha. Desligou o rádio. A estrada parecia não ter fim. Nem placa passava. Nem carro! Àquela hora era certo que não surgiria ninguém. Subir a serra no meio da semana só dá nisso, ainda mais nessas horas. O mar estendia misterioso pelo canto do olho de Peixoto. Vai ser subalterno de gente folgada, é o que sobra pra mim!
Peixoto remoía suas mágoas. E a estrada não acabava.
Já passava das quatro e nada de gente ou de carros ou de luzes, o cansaço subia igualzinho o carro na estrada inclinada, devagar e sempre.
Ligou o rádio de novo para acordar, quem sabe ficava acordado, senão o precipício iria servir de cama pro seu corpo sonolento.
– Zero horas na Rádio Paixão, só sucessos de amor! – recitava o radialista em tom melodioso.
Mas que merda é essa? Mudou de estação, mas só chiava. Rádio de merda! Rádio de merda!
Tudo bem que pagavam pouca verba e aquilo era carro de serviço, mas que rádio de merda! De merda!
O ar cheirava meio parado. Abriu a janela e não sentia vento. A estrada na frente sumiu de repente, um buraco, o carro entrou num lamaçal e árvores cobriam tudo, não se enxergava nada a dois ou três palmos diante do carro, apenas folhas clareadas pelo farol. Os pneus continuavam mudos. Outro solavanco. A estrada apareceu novamente.
Peixoto estava pálido e boquiaberto. Tremia como se tivesse medo, muito medo. Só não dava pra saber de quê. Sonhava um sonho real. Ou era uma realidade de sonho? A estrada apenas continuava.
Logo surgiu uma placa indicando São Paulo.
– Zero horas na Rádio Paixão, só sucessos de amor! E não demora a próxima... – Enfiou o dedo no botão.
Que rádio chata! Que radialista de merda! Esse rádio de merda! Mas eram zero horas no painel do carro...

– Peixoto, cala a boca! Não quero saber de sonho ou delírio ou qualquer coisa que possa sair da sua cabeça inconveniente. – atalhou o chefe na delegacia – Me conte mais sobre o Barbosa!



Uma sensação de não haver trégua e não há.
O que já foi parece estar parado.
O que virá não tem forma e se dissipa.
Mas o agora é intenso e denso e vivo e intrépido...



Admirar o Universo é um meio bobo de se divertir e de viver.



Sem manual de instruções, sem memórias.
Não há o que perder, só o que ganhar, quiçá!



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