I.Cor
O coração batendo violentamente, o pulso vibrante, os dedos úmidos e trêmulos, a respiração ofegante, o ar nublado naquela noite. Passava das nove e o silêncio reinava absoluto, exceto pelas pancadas surdas do coração que batia violentamente... Violentamente... Os gritos...
Os olhos turvaram de cores vermelhas e tons enegrecidos, um mar rodeava as mãos de quem já expirava, de quem não se levantaria mais.
Rostos estranhos rodeavam os céus já distantes, um prédio familiar crescia para o alto, uma garoa fina doía em quem não revidaria...
– Peço clemência... – e repetia a frase que ouvira naquela manhã.
II.Olhar frio e desmaiado
Levantei-me naquele dia qualquer. Saí da cama com certa dificuldade, mais um dia estudando aquilo que já nem sabia se faria sentido. O café, o pão, a mulher da TV, os olhares violentos do cotidiano. Desci as escadas do prédio, tropecei, caí, levantei... Ninguém viu, eu acho. Caminhava.
O dia estava um pouco nublado e, carecia em mim, precisava de um dia triste que combinasse com... Hoje era esse dia. Procurei com certa dificuldade, olhei em volta e vi um olhar frio e desmaiado. Lá estava ela.
– Oi... Acho que, bem, é você... – eu disse com uma voz sumida e áspera.
– Ainda bem que veio, pensei que tivesse achado que era brincadeira, mas não era.
Aquela moça esquisita pusera um bilhete no meu bolso e piscara para mim noutro dia. Havia no bilhete esse horário marcado e um "No caminho da escola. Não tenha medo."
– O que quer?
– Soube que você precisa de uma amiga. É verdade?
– Preciso é de paz.
– Isso não foi muito amigável...
– Me desculpe... É que faz um tempo que não falam comigo que não seja para me aborrecer... Como se chama?
– Catarina. E você? – e seus olhos tristes sondavam-me...
– Élton.
Seu semblante continuava pesado, mas Catarina ainda me olhava como se quisesse algo.
– Eu te vejo amanhã. – e saiu rapidamente, quase não dando tempo para eu responder.
Catarina deveria ter entre vinte e cinco e trinta anos, trajava uma roupa simples, não muito nova e andava com ar de quem está debilitado. Pouco percebi além disso.
Ao voltar para casa, dei-me com ela, novamente... Catarina.
– Oi, Élton. Preciso da sua ajuda.
Pegou minha mão direita com certa firmeza e levou-me a uma praça, perto de casa.
– Veja aquele homem.
Quando olhei, deparei-me com um idoso, mais ou menos noventa anos. Parecia decrépito em demasia.
– Que tem – perguntei olhando de soslaio para o relógio –, é um velho, e dai?
– Ele é o exemplo vivo de que a vida é uma ironia.
– Como assim? – eu perguntava acompanhando umas piscadelas características de quando estava impaciente.
De repente ela gritou bem alto:
– Ei, senhor! Qual seu maior desejo?
– Vai lá em casa que eu te digo! – fez o velhinho com um sorrisinho quebrado.
Catarina torceu o olhar para mim e resmungou que estava tudo bem. Levou-me mais adiante.
– Oi, amigo – disse a um homem de uns trinta anos que lia um jornal –, o que vai fazer quando morrer?
– Cuidar da minha vida. – o olhar do homem voltou à seção dos desempregados que, curiosamente, só é lida por aqueles que querem um emprego.
Andamos mais um pouco, Catarina fez perguntas similares a outras pessoas. Mas a resposta era sempre da mesma classe. Até que...
– Eu não sei – disse uma mulher maltrapilha que carregava uma criança bem pequena –, não sei se a vida vale a pena.
– Por que não sabe?
– Moça, eu vivo porque cheguei até aqui e, agora, com essa menina, não posso desistir.
– Obrigada, disse Catarina.
Ela marchou uns passos à frente e fez um gesto para que eu a acompanhasse.
– Vou andar por aí, você vem?
Acenei positivamente com a cabeça já que qualquer coisa seria melhor que voltar para casa e assistir à TV a tarde toda.
III.O ônibus
Subimos num ônibus um pouco antigo. Ranhuras no piso sujo indicavam sua utilidade no domínio público... As subidas eram íngremes e os solavancos enjoavam um pouco. Estávamos indo à periferia...
– Veja aquelas pessoas na ponte, acha que escolheram aquilo?
– Talvez... – respondi.
– Eu digo que em partes. Alguns se acomodaram, outros aguardam o dia seguinte esperando que algo aconteça de surpreendente, embora saibam que é inútil pensar assim. Mas outros criaram raízes porque ficaram habituados por seus pais. Você entende o que eu digo?
– Não sei. Acho que espero algo surpreendente...
– Por isso estou aqui, pra te dar a chance de se salvar.
– E é de alguma igreja? – perguntei com certa inocência.
Nesse instante uma buzina soou e o motorista do ônibus freou o veículo bruscamente. Gritou uns palavrões. A viagem prosseguiu.
– Não sou de igreja, nem vou lhe converter a nada. A minha fé é mais simples que a deles.
– De quem?
– Olhe aquelas casas... – apontava com o dedo para algumas casas de tijolo vermelho.
E continuou:
– São um pouco do que eu dizia e... – acabei perdendo a atenção por causa de alguns cães que perambulavam animados numa rua – ... estou pensando em tudo isso, e você compreende, não?
Assenti por educação.
Mostrou-me vários lugares naquele ambiente que era cada vez mais pobre. Até que descemos no ponto final. As ruas curvilíneas cresciam morro acima.
Pegamos o ônibus de volta e quando percebi, estava em casa de novo, em meu quarto. Minha mãe me censurava sobre alguma coisa, mas não lembro o assunto, creio que era pelo horário – já passava das seis e eu sempre chegava pelo meio-dia.
IV.Quarto
Enquanto tentava dormir, pensava no que Catarina disse. Depois que voltávamos, ela resmungou algumas coisas e tentava me convencer de algo. Não compreendi muito bem, mas acabei contando tudo sobre a escola e os meus colegas, falei sobre minha vida 'agitadíssima' e o assunto acabou logo. Por sorte a viagem já estava no fim. Quando me despedi, Catarina fez um gesto embrulhado de quem... Adormeci.
V.Incidente
Caminhava no meu caminho quotidiano. A escola não ficava longe do meu prédio. Catarina surgiu.
Andamos alguns passos em silêncio após ter me cumprimentado.
– A vida passa pela janela. E lá fora, os outros aproveitam, pensam que sabem tudo sobre ela. Estão enganados, mas estão lá. E nós? Nós sucumbimos por não sermos tão apáticos. Você entende isso?
– Ah... Eu acho que sim.
– Quantos anos você tem? – ela fincava olhos tenebrosos em mim.
– Ahn... Treze.
Pensou por uns instantes e disse:
– O que faria se soubesse quanto tempo tem de vida?
Eu confesso que não entendi bem o propósito da pergunta, mas tentei responder.
– Nada.
– Como assim? Nada? – respondeu Catarina com os olhos flamejantes.
– Não acho que faria algo importante... Talvez eu ficasse com medo... Não sei...
Ela parou no meio da calçada e ficou me olhando. Até que disse:
– Não vou enganá-lo, só estou tentando dizer que vai morrer em breve, e por conta própria, porque, assim como eu, não vai tolerar essa vida odiosa, esse mundo odioso; vai me dar razão. Se soubesse quanto tempo tem de vida, simplesmente eu estaria contando os poucos segundos que ainda restassem. Adeus.
Catarina saiu quase que correndo pela rua e sumiu num cruzamento logo à frente.
Passei o dia inteiro pensando no que ela queria dizer realmente. Parecia transtornada.
Atravessei um semáforo na rua da escola. Num relance um carro atropelou uma moça que lia no banco da praça. Era uma praça um pouco abandonada na qual eu sempre parava para admirar. Vi cada detalhe daquela cena. Ela morreu instantaneamente. O motorista do carro abriu a porta e cambaleou para fora. Ele sangrava muito quando alguns guardas chegaram a pé. Corri – apenas corri – para casa.
VI.A chuva
Cheguei em casa e o céu estava negro. A chuva era inevitável. Sentei na minha cama e olhei em volta, as coisas embaralhavam um pouco. Minha mãe chegou à porta e perguntou o que havia e eu respondi que nada demais, só estava cansado por não ter dormido de madrugada. Ela concordou com a cabeça, mas desconfiou que houvesse algo errado. Como eu não disse mais nada, acabou indo para a sala.
Fiquei pensando à janela no que havia ocorrido. Os carros, as placas, os rostos, os olhares, tudo ficava mais claro agora. Que era aquilo? Alguém que estava diante de mim, num segundo, morria. Qual desgraça? E eu conhecia, agora pude lembrar, aquela moça; ela era familiar. Quase todos os dias depois da escola eu a via pegando um ônibus de viagem e com um jornal novo nas mãos. Continuei meus pensamentos assim, a noite caía e uma garoa lá fora rasgava os céus.
– Élton, querido, vou com seu pai ao mercado, tudo bem? Seu pai demorou pra chegar hoje. Não tem quase nada na geladeira nem no armário, preciso fazer compras. Você quer vir?
– Não, mãe, vou ficar aqui, vendo a chuva.
– A chuva? – ela hesitou um pouco – Não vá ficar entediado então, e sorriu um sorrisinho sarcástico.
Vi da janela o carro dos meus pais.
Aproximei-me da janela um pouco e vi uma luz estranha lá embaixo. Parecia uma lanterna. Nada de importante, mas é que na chuva isso dá um pouco de medo. O quarto estava escuro, não via bem o chão e o canto da janela. Um grito de um homem na escuridão lá do estacionamento me chamou a atenção. Pisei num banquinho que estava perto do meu pé. Meu coração batia rápido, minha perna tremeu e quando percebi... rolei do parapeito e a chuva já batia no meu rosto, vermelho, enlameado de sangue. Os segundos não eram bem certos, nem resumidos. O tempo passava.
Eu ainda conto essa história durante a eternidade por todas as vezes que me leem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário